O Código da Estrada: Um guia de ficção interpretativa

 


É uma verdade universalmente conhecida que o código da estrada português foi secretamente substituído por um manual de autogestão emocional e criatividade artística. 
Afinal, como explicar a generalizada convicção de que o sinal de "Sentido proibido" é apenas uma sugestão decorativa de cor vermelha ou que a rotunda é uma pista de carrinhos de choque onde a prioridade pertence a quem demonstrar maior audácia e ausência de amor à vida? 
Circular nas nossas estradas transformou-se numa espécie de roleta russa motorizada, onde a ignorância das regras é o motor da experiência.
O mais fascinante nesta intrépida comunidade de condutores (que claramente obteve a carta de condução num sorteio de faturas ou na compra de um pacote de Juá) é a sua imensa e comovente fragilidade de ego. Colocam alegremente em risco a integridade física de famílias inteiras e ignoram estradas de sentido único enquanto consultam as novidades nas redes sociais. Contudo, o verdadeiro espetáculo começa quando alguém, munido de uma paciência evangélica, ousa alertá-los para a sua transgressão. 
Nesse preciso momento, o infrator transforma-se instantaneamente num filósofo incompreendido e altamente agressivo. A outrora pacata criatura abre a janela para oferecer um vasto e detalhado repertório de insultos sobre a árvore genealógica de quem o tentou salvar, acompanhado por gestos obscenos perfeitamente coreografados e promessas de violência física gratuita. 
No fundo, há que admirar esta coerência poética: não sabem o que significa um sinal de via de sentido proibido, desconhecem o significado de “sentido único”, mas dominam com uma mestria invejável toda a enciclopédia do calão nacional. Conduzir em Portugal não é um ato de civismo; é um desporto de combate com direito a banda sonora de impropérios.

Imagem: Pixabay

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