O céu não pediu licença. Desabou em fúria, transformando ruas em rios de memórias turvas e o vento, em algo que já não reconhecíamos.
Olhar para os estragos das últimas tempestades é, num primeiro momento, um exercício de silêncio. Vê-se o telhado que voou, a árvore centenária que se rendeu e a lama que teima em entrar por onde o sol costumava morar.
No entanto, há algo que a tempestade, por mais violenta que seja, nunca consegue levar: a raiz.
Se percorrermos os trilhos da destruição, encontramos o que de mais belo temos. Não são os objetos recuperados, mas as mãos que se estendem. É o vizinho que abre a porta antes mesmo de o vento parar, é a vassoura que empurra a água e o abraço que reconstrói o que o medo tentou derrubar.
As cicatrizes na paisagem são reais, é verdade, e doem. Mas cada ramo caído é também lenha para o lume novo. Onde o solo foi castigado, a terra amolece para que novas sementes, mais fortes e preparadas, possam vingar.
O nosso país tem esta têmpera: somos feitos de granito e de mar, endurecidos pela adversidade, mas nunca quebrados por ela.
A tempestade passa sempre. O que fica não é apenas o rasto do que se perdeu, mas a prova viva de que somos capazes de erguer, tijolo a tijolo, uma manhã muito mais luminosa do que a tarde que a precedeu.
Amanhã, o sol não encontrará apenas destroços; encontrará um povo de pé.
Imagem: Observador

1 Comentários
Belíssima forma de descrever a nossa gente! É um orgulho pertencer a este povo que nunca desiste. Como tão bem diz, "de granito e mar, endurecido pela adversidade" que arregassa as mangas e se reergue do caos, plantando nele a esperança. Uma boa semana!
ResponderEliminarMuito obrigado pelo seu comentário.