A certa altura, depois da tempestade, percebe-se que o vento não levou apenas telhados e memórias. Levou também a frágil ilusão de que, no pior momento, todos seriam capazes de reconhecer a fragilidade alheia como sagrada. Mas não: há sempre quem veja na desgraça uma oportunidade, quem transforme o desespero dos outros numa espécie de moeda de troca.
É estranho como, quando alguém perde tudo, surgem mãos estendidas em duas direções opostas: umas para ajudar a levantar, outras para remexer os bolsos rasgados. E estas últimas movem-se com uma frieza quase científica, como se a dor fosse apenas um detalhe irrelevante, um ruído de fundo.
O mais perturbador não é o furto em si, mas a lógica que o sustenta: a ideia de que a vulnerabilidade é um convite, de que a miséria alheia legitima a ganância própria. Como se o sofrimento fosse um terreno fértil onde certos espíritos medíocres cultivam lucro.
Apesar disso, ali, entre destroços e silêncios, há algo que resiste. Uma espécie de dignidade teimosa, quase invisível, que insiste em lembrar que a humanidade não se mede pelo que o vento arranca, mas pelo que cada um escolhe não tirar dos outros.
Imagem: Pixabay

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