O fósforo e o fado

 


Bastam os primeiros dias de calor sufocante para que Portugal assista ao regresso daquela que se tornou a sua mais trágica e indesejada tradição. 
Com uma pontualidade que assusta, o termómetro sobe e o fumo volta a rasgar o horizonte. 
Ver a floresta arder logo nos primeiros dias de sol tornou-se um ritual doloroso de déjà-vu, um "clássico de verão" televisivo onde reconhecemos os mesmos rostos exaustos dos bombeiros e o eco das sirenes nas serras. 
Haverá nisto uma coincidência? A meteorologia dita as condições perfeitas (a secura da terra e o vento forte), mas a verdade é que a natureza, por si só, raramente acende o fósforo. 
Esta repetição anual nasce quase sempre do gesto humano, seja pela negligência de uma queimada mal guardada, pelo descuido no campo ou pela mão criminosa que encontra no clima o cúmplice perfeito. O fogo que destrói o país partilha connosco a mesma autoria. 
A verdadeira inspiração reside na recusa em normalizar esta fatalidade. Não podemos aceitar a cinza como o fado inevitável da nossa paisagem. Que estes primeiros dias de calor sirvam de apelo à responsabilidade coletiva, pois cuidar da floresta é o pacto que assinamos com a nossa própria sobrevivência, para que o verão português volte a ser, um dia, apenas sinónimo de luz, mar e vida.

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