Se o inferno tivesse uma banda sonora, seria composta em exclusivo por peles de cabra esticadas e baquetas de madeira densa, tocadas em uníssono por milhares de entusiastas com demasiada energia.
A Noite dos Bombos em Penafiel é aquele momento mágico do ano em que a cidade decide abdicar voluntariamente de qualquer resquício de sanidade mental, transformando o silêncio num crime de lesa-pátria.
É uma belíssima celebração onde a melodia é substituída pela pura e dura vibração que promete, com assinalável sucesso, reorganizar a estrutura óssea de quem se atreva a passar pelas ruas.
Neste cenário de apocalipse acústico, há uma elite que sorri secretamente: os portadores de aparelhos auditivos. Que invejável bênção a deles!
Enquanto o cidadão comum sente os tímpanos a implorar por misericórdia, a estes felizardos basta um simples e subtil gesto mecânico para desligar o mundo. Removem o aparelho, guardam-no no bolso com a elegância de um mestre de artes marciais e entram instantaneamente num casulo de paz absoluta, assistindo à fúria dos tambores como quem vê um filme mudo e ligeiramente patético.
Para os restantes mortais, dotados da terrível maldição de uma audição perfeita, a coragem é apenas falta de plano.
Não há tampões de ouvidos que sobrevivam à insistência milenar daquele ritmo cardíaco artificial, pelo que a única atitude minimamente inteligente é a fuga. Se preza a integridade da sua massa cinzenta, organize uma saída estratégica antes que a primeira batida ecoe; fuja para as montanhas, mude de cidade ou simplesmente finja que tem um compromisso urgente algures onde o único estrondo permitido seja o de um silêncio reconfortante.
Imagem: Pixabay

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