É frequente dizer-se, no recato das vilas e no silêncio das aldeias, que a cultura é um luxo de quem tem tempo, ou, pior, um obstáculo ao que é "verdadeiramente importante". Entre o remendo de uma estrada e a pintura de um coreto, o pragmatismo vence quase sempre. "Para que serve um livro ou uma peça de teatro", questionam as vozes mais austeras, "se a barriga continua vazia ou o telhado ainda mete água?"
No entanto, essa visão da cultura como algo acessório é o maior engano de quem vive o quotidiano.
Nos meios pequenos, onde a rotina pode tornar-se uma redoma e o horizonte parece terminar na montanha mais próxima, a cultura não é o adereço; é a janela. Sem ela, uma comunidade não passa de um conjunto de casas habitadas por estranhos que partilham apenas o código postal.
É a cultura, seja no rancho folclórico que preserva a memória, na biblioteca que acende a dúvida ou no cinema projetado na parede do quartel, que transforma o "eu" num "nós".
Olhar para a arte ou para o saber como um obstáculo é ignorar que a economia de uma terra sobrevive do corpo, mas a sua identidade sobrevive da alma.
Uma vila sem vida cultural é uma vila que se esquece de como sonhar em voz alta. E quando uma comunidade para de imaginar, ela começa a encolher, não por falta de gente, mas por falta de propósito.
A cultura nos meios pequenos não é um desvio no caminho; é o próprio caminho. É o que impede que o silêncio das ruas se torne um silêncio de ideias.
As estradas levam-nos a algum lado, mas é a cultura que nos explica porque é que vale a pena lá chegar.
Imagem gerada por IA

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