Há séculos que a infeliz mulher de Júlio César carrega nas costas o peso de um dos maiores aforismos da civilização ocidental. A pobre criatura não precisava apenas de ser honesta; tinha de pairar acima de qualquer suspeita, imaculada como o mármore de Carrara. Avancemos dois milénios. Se o bom do imperador ressuscitasse hoje e olhasse para o feed do Instagram, do Facebook ou para o circo da opinião pública, perceberia, que a sua máxima foi tragicamente mal interpretada. Ou pior: foi levada ao seu extremo mais absoluto e ridículo.
Hoje, à mulher de César (e a todos nós, meros mortais que tentam sobreviver à ditadura da imagem), já não importa rigorosamente nada o ser.
O ser morreu, foi enterrado e nem sequer teve direito a uma nota de rodapé na história da modernidade. Tudo o que resta, tudo o que urge, é o parecer.
Se a mulher de César fosse apanhada com a mão no saco (ou no anfiteatro com um gladiador que não o seu augusto esposo), a estratégia contemporânea não passa pela contrição. Deus nos livre do arrependimento genuíno; isso não gera engajamento. A solução é emitir um comunicado redigido por uma inteligência artificial. Ela não tem de ser inocente; tem de parecer vulnerável.
Antigamente, a sátira atacava a hipocrisia: o homem que se dizia santo mas pecava às escondidas. Hoje, a sátira perdeu o emprego para a realidade. A hipocrisia tornou-se uma competência curricular.
Vivemos na era do "empreendedor de palco" que nunca faturou um cêntimo, mas dá palestras sobre o sucesso; do ativista de sofá que salva o planeta com uma hashtag mas não recicla o pacote de leite; do político que não governa, mas encena que governa. Se César dissesse hoje que a sua mulher tem de parecer honesta, ela responderia, munida de um espetacular cinismo corporativo: "Meu querido Júlio, eu já pareço honesta no TikTok. O que eu faço no Metaverso já não é da tua conta."
A tragédia da nossa época é que o parecer tornou-se tão sofisticado que o ser passou a ser um estorvo. Quem perde tempo a cultivar a alma, o intelecto ou a verdadeira ética quando o mercado apenas remunera a embalagem? A substância pesa, ocupa espaço e, pior de tudo, não tem fotogenia.
A máxima imperial foi atualizada para o século XXI com um cinismo atroz. Se a mulher de César for apanhada no meio do escândalo, a sociedade atual não a exilará. Pelo contrário: contribuirá com um milhão de seguidores, um contrato para um podcast e, quem sabe, uma linha de maquilhagem chamada Suspicion. Afinal, a César o que é de César; e à sua mulher, os direitos de autor da sua própria infâmia.

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