O crematório das palavras


Há um crime que se comete em silêncio na penumbra dos bairros, um ato que carrega a solenidade fria de um abandono. Quando alguém se aproxima de um caixote do lixo com os braços carregados de lombadas, não está apenas a desfazer-se de papel e cartão. Está, na verdade, a decretar a falência de uma memória.

Cada volume ali depositado, entre o resto do jantar e o plástico inútil, representa um portal que se fecha para sempre, uma herança que perdeu o seu herdeiro e a pressa cruel de quem precisa de esvaziar uma casa para esvaziar o passado. Muitas vezes, a culpa é da morte. 
Quando os velhos guardiões das estantes partem, deixam para trás catedrais de poeira e sabedoria que os vivos, sufocados pela urgência do metro quadrado e pelo pragmatismo dos dias modernos, não sabem como acolher. 
Olham para as enciclopédias e só veem peso; folheiam os clássicos e só sentem o mofo. 
Na incapacidade de digerir o luto ou de encontrar quem queira o que o tempo desvalorizou, o contentor da esquina torna-se o túmulo improvisado de uma vida inteira de leituras. Noutras ocasiões, o gesto nasce do rancor ou do desespero do esquecimento. 
Queimar cartas é um cliché antigo, mas atirar ao lixo os livros que outrora se partilharam com um amor que ruiu é uma decapitação emocional. 
Há divórcios e ruturas que exigem uma purga radical, onde manter aquela edição especial de poesia na prateleira dói como uma farpa cravada na carne. Nesses momentos de fúria cega, o caixote do lixo não é um depósito de resíduos, é um crematório sem fogo onde se enterram as promessas que falharam. 
Mas há ainda a mais triste das razões: a ignorância anestesiante de uma era que desaprendeu o peso do sagrado. 
Para quem cresceu a ver o mundo através de ecrãs táteis e efémeros, o objeto livro perdeu a sua mística; tornou-se apenas entulho, estorvo físico numa rotina que exige leveza e desapego. 
Ver um livro deitado no lixo, com as páginas abertas ao vento e à chuva, é o reflexo exato de uma sociedade que, ao descartar as palavras que a fundaram, caminha alegremente em direção à sua própria amnésia.

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