Haverá algo mais desalmado do que a pressa com que se consome e vomita a tragédia alheia? Hoje, abrir o ecrã do telemóvel é entrar numa praça pública onde a discrição foi banida e a dor dos outros se transformou na moeda de troca mais barata do egoísmo digital. As redes sociais deixaram de ser simples pontes de contacto para se tornarem um espelho impiedoso de quem as habita: a ânsia de notoriedade a sobrepor-se a tudo, o aplauso virtual como uma droga que anestesia qualquer resquício de decência.
O que mais assombra não é apenas a voracidade com que se corre a dar a "primeira mão" da notícia, mas a total ausência de pudor perante o sofrimento.
Há uma pressa obscena em ser o primeiro a publicar, o pioneiro do luto alheio, como se a relevância de uma vida se medisse pelo número de visualizações geradas à custa da desgraça alheia.
Perante uma perda, perante um momento que exigiria o recolhimento do silêncio e a solenidade do respeito, assiste-se ao espetáculo grotesco de quem quer ser protagonista de uma dor que nem sequer lhe pertence.
Fica-se parvo com esta incapacidade coletiva de recato. A memória, a família, a dignidade da pessoa humana são espezinhadas em nome de um algoritmo que recompensa o ruído e pune a discrição.
Esquecemo-nos de como ser humanos na penumbra; queremos os holofotes acesos, mesmo que seja sobre os escombros dos outros.
Imagem: Pixabay

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