Há presenças que nos habitam sem nunca terem chegado a ocupar um lugar por inteiro. Crescemos a ouvir dizer que os avós são segundos pais, uma colcha de retalhos feita de indulgência, de tempo esticado e de uma paciência que os anos lapidam.
São a raiz longa que nos segura à terra, a memória viva de onde viemos e o refúgio onde o mundo desacelera.
No entanto, há quem conheça essa figura apenas através de uma névoa. Quando o único rosto avoengo que a vida nos concede se desfaz sob o peso implacável da demência ou do Alzheimer, a relação ganha contornos de um silêncio melancólico.
Não há histórias partilhadas ao lume, nem conselhos sussurrados com a sabedoria de quem já viu tudo.
Há, em vez disso, mãos que apertamos sem que nos reconheçam, um olhar que vagueia por horizontes invisíveis e a sensação dolorosa de amar alguém que já partiu, embora ainda ali permaneça.
Mesmo sem a partilha plena, fica a herança intangível.
Percebemos que a importância dos avós não se mede apenas pelo que nos contam, mas pelo espaço que abrem dentro de nós: o lugar vago de um abraço que adivinhamos aconchegante, a saudade precoce de um amor que não chegou a inteirar-se e a certeza, profunda e terna, de que eles foram, apesar de tudo, o princípio de tudo o que somos.
Imagem gerada por IA

0 Comentários
Muito obrigado pelo seu comentário.