Há sociedades que colecionam cinzas como quem guarda relíquias de um império que nunca chegaram a erguer.
Vive-se num estranho pacto de conivência com o fogo, como se a terra, farta de si mesma, precisasse de arder para justificar a própria existência.
É desconcertante o fascínio por este quotidiano em brasa.
Há quem prefira, sem o confessar em voz alta, o peso sufocante do ar saturado de fumo à clareza crua e exigente do ar puro. Como se a penumbra tóxica fosse um refúgio contra a verdade das coisas.
Nesta geografia do avesso, cultiva-se o culto do calor agressivo. Prefere-se a urgência febril das chamas à frescura ancestral da água do Atlântico. O oceano, com a sua imensidão azul e inegociável, parece exigir demasiado equilíbrio; o fogo, pelo contrário, oferece o espetáculo rápido da catástrofe, a intensidade cega de quem quer sentir alguma coisa, mesmo que seja a destruição.
Parece haver uma predileção mórbida pela paisagem calcinada, onde a urgência da reconstrução é permanentemente adiada em favor do luto estético.
Prefere-se o negro carvão à tapeçaria verde e complexa da beleza natural. É uma forma de abdicação: arder é mais fácil do que cuidar.
Imagem gerada por IA

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