Há camisolas que vestimos antes mesmo de entrar em campo, armaduras de excentricidade que o mundo julga conhecer à primeira vista.
Durante muito tempo, confesso, olhei para Marc Cucurella e para aquela juba indomável com um sorriso cético.
Parecia-me apenas mais uma figura excêntrica do futebol moderno, moldada pela estética e pelo espetáculo. Julguei pela capa, como tantas vezes fazemos.
Até que li as suas palavras.
Até que percebi o fio invisível que une um pai ao seu filho. Aquele cabelo volumoso e caótico não é um capricho de vaidade, nem um manifesto de moda; é um farol. Uma bandeira de afeto erguida nos relvados de elite para que, entre a multidão compacta e o turbilhão das câmaras, o filho, autista, o consiga encontrar de imediato, reconhecendo-o sem margem para erro. E quando li que escolhe os clubes não pelo brilho do troféu ou pelo cifrão do contrato, mas pela proximidade de instituições capazes de cuidar do seu menino, o meu olhar desarmou-se por completo.
O futebol deixou de ser apenas um jogo de negócios e recuperou a sua dimensão mais pura.
A empatia nasce muitas vezes deste abanão: o momento exato em que a caricatura se desfaz e percebemos que, por baixo de qualquer armadura, bate o coração de quem ama incondicionalmente. Fiquei comovido porque percebi que as maiores exibições da vida não acontecem com a bola nos pés, mas na forma silenciosa como protegemos o que mais amamos.
Imagem retirada da web

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