Velocidade de foguete, passo de tartaruga: A anatomia dos combustíveis

 


A ciência económica moderna teve de ser inteiramente reescrita graças aos combustíveis. Esqueçam a lei da gravidade de Newton: hoje, o que sobe não tem obrigatoriamente de descer com a mesma intensidade, e a física quântica parece brincadeira de criança ao lado do comportamento de um litro de gasolina. 
Basta um leve sobressalto no Médio Oriente, uma borboleta espirrar na Ásia ou o CEO de uma petrolífera ter uma indigestão para que, num ápice (quase à velocidade da luz), os preços nas bombas disparem. É uma eficiência notável, um verdadeiro milagre de agilidade empresarial.
A subida é tão veloz que nem dá tempo de tirar a carteira do bolso: quando lá chegamos, o número já mudou de patamar, implacável e voraz. Já a descida, essa sim, exige paciência franciscana. 
A descida é um exercício de meditação e lentidão, conta-gotas, um milímetro por semana, para não chocar o consumidor com demasiada brandura. O petróleo desaba nos mercados internacionais? A gasolina reage com a moderação de quem caminha sobre ovos, desceu dois cêntimos para logo a seguir subir três, por precaução. 
O orçamento familiar, esse talentoso equilibrista, faz milagres com o nada. Entre o custo da deslocação para ir trabalhar e os nossos paupérrimos salários (que mantêm uma fidelidade comovente à estagnação), a matemática deixa de fazer sentido. 
O ordenado mínimo nacional serve agora, essencialmente, para pagar o privilégio de ir ganhar o ordenado mínimo nacional. 
Trabalhar compensa tanto que, com um pouco mais de sorte, ainda temos de pedir um empréstimo para conseguir ir trabalhar.

Imagem: Pixabay

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