Há uma estranha insatisfação que nos habita desde o berço, que nos lembra constantemente que o lugar onde estamos nunca é o bastante.
Reclamamos da vida não por genuína escassez, mas porque a rotina tem o condão de anestesiar o espanto, fazendo com que as nossas próprias conquistas percam o brilho no exato momento em que deixam de ser miragem e passam a ser mobília do dia a dia.
É essa cegueira que nos empurra para a cobiça alheia.
Olhamos para a vida dos outros como quem contempla uma montra perfeita, focando apenas no brilho do troféu e ignorando por completo o peso da bagagem.
Queremos o destino do outro, mas recusamos as cicatrizes que o desenharam. Desejamos a colheita generosa de quem admiramos, esquecendo as tempestades que enfrentou, as noites de insónia e o suor de cada batalha invisível.
Queremos o atalho sem o precipício, o triunfo sem a queda. E, ao cobiçarmos o reflexo dos outros, esvaziamos o nosso próprio espelho, condenando-nos a uma eterna privação: a de nunca vivermos, de verdade, a nossa própria história.
Imagem: Pixabay

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