Nada estimula tanto a mente de um desocupado como o reboliço da vida alheia. Para quem tem o tempo em estado de abandono, as rotinas dos outros não são apenas interessantes; são um espetáculo de grande audiência, gratuito e ininterrupto. O desocupado vive numa espécie de vigília permanente, com o pescoço cronicamente inclinado sobre a sebe, a janela ou o feed das redes sociais, onde a existência dos vizinhos e conhecidos adquire contornos de telenovela de horário nobre.
É uma fascinação quase científica na sua minudência e absolutamente inútil na sua finalidade. Estuda-se a hora a que o outro sai para trabalhar, perscruta-se a marca das compras que carrega nos sacos, disseca-se a expressão facial com que regressa a casa e elaboram-se teorias mirabolantes sobre crises financeiras ou relacionamentos em ruína.
A ironia, claro, é cristalina: enquanto o sujeito empenhado gasta a vida a viver, o ocioso gasta a sua a arbitrá-la.
O desocupado transforma-se num crítico de arte de uma galeria à qual nunca foi convidado, comentando a pincelada alheia com a autoridade moral de quem nem sequer pegou na tela.
A verdade é que a vida dos outros é o único combustível que resta para disfarçar o silêncio ensurdecedor da sua própria irrelevância.
Imagem gerada por IA

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