A mente humana tem alçapões assustadores. É uma verdade desconfortável, daquelas que nos recusamos a aceitar até que a realidade nos atinge com mais uma notícia trágica de uma criança esquecida num carro. A ciência tenta explicar o inexplicável falando em amnésia de rotina, um curto-circuito em que o cérebro entra em piloto automático e substitui a memória do que devia ter feito pela ilusão de que já o fez. Mas a neurociência soa fria e insuficiente perante uma falha tão cruel num sistema que devia proteger o que de mais precioso temos.
A razão tenta procurar uma lógica, mas o coração recusa-se a aceitar.
O que verdadeiramente nos destrói ao ler estas notícias é a imaginação: o sofrimento silencioso da criança no calor sufocante e, logo a seguir, o abismo em que os pais mergulham. O instante em que a ilusão se desfaz e a realidade se revela é de um desespero tão vasto que consome quem o vive e assombra quem o assiste de fora.
É uma dor sem regresso, para a qual não há culpa que pague nem perdão que cure.
Estes episódios deixam-nos num estado deplorável porque nos roubam a ilusão de controlo. Lembram-nos da vulnerabilidade extrema da infância e da fragilidade assustadora da nossa própria mente. Revelam, acima de tudo, a tragédia mais difícil de digerir: a de que o monstro que destrói uma família nem sempre vem sob a forma de maldade, mas sim na pressa cega de um dia banal e de um segundo em que a memória simplesmente falhou.
Imagem gerada por IA

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