Há uma estranha mania que habita certos espíritos: o vício do excesso naquilo que é pequeno.
Observo, com uma mistura de perplexidade e desencanto, a forma como tantos se apressam a pegar no insignificante, a poli-lo com palavras pomposas e a erguer-lhe um pedestal.
Trata-se de uma tentativa desesperada de inventar grandeza onde só existe o banal.
Um gesto banal transforma-se em "visão revolucionária"; uma ideia medíocre, empacotada no vocabulário certo, passa a "genialidade incompreendida". Há uma fome quase infantil de transformar migalhas em banquetes, como se admitir a pequenez das coisas fosse uma afronta ao próprio ego de quem as observa.
Mas o fenómeno torna-se ainda mais perturbador quando essa alquimia ilusória se vira para os outros.
Basta que alguém alcance o sucesso, essa entidade abstrata e tantas vezes fruto do acaso, da oportunidade ou da simples ausência de escrúpulos, para que o banal se converta em divino. O esforço desse indivíduo, que no fundo é apenas o esforço humano, igual ao de qualquer pedreiro, padeiro ou mãe de família, é desproporcionalmente santificado. Cada passo que dá é lido como uma dança cósmica; cada palavra dita, um oráculo. Transforma-se o homem bem-sucedido num Deus de carne e osso, esquecendo que ele sangra, erra e tropeça exatamente como os outros.
Projecta-se no vencedor uma aura de perfeição para justificar a nossa própria pequenez.
É mais fácil venerar o sucesso alheio como um milagre divino do que encará-lo pelo que muitas vezes é: uma mistura de trabalho, privilégio e sorte. Ao divinizar o outro, desculpamo-nos por não sermos gigantes.
Este teatro de falsas grandezas revela apenas a nossa incapacidade de conviver com a simplicidade.
Esquecemo-nos de que o valor real não precisa de amplificadores, e que nem todo o esforço merece um templo, às vezes, basta-lhe um simples e silencioso respeito.

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