Há uma riqueza oculta nas coisas simples, uma magia imensa que só o tempo nos ensina a valorizar. Quando olho para trás, percebo que a infância não se mediu em luxos, mas no calor das memórias que o coração guardou intactas.
Lembro-me do ritual sagrado das tardes: uma fatia grossa de pão com manteiga e açúcar, onde os grãos estalavam entre os dentes como pequenos cristais de pura felicidade, ou do encanto de deliciar duas bolachas Maria coladas com manteiga, transformadas num "sanduíche" improvisado que sabia à mais requintada das sobremesas.
Lembro-me do cuidado diário, traduzido naquela colher cheia de Tonosol vinda daquele imponente frasco de litro, um xarope laranja que parecia carregar a própria promessa de crescimento e vida.
A verdadeira abundância nunca esteve nas coisas, mas na alma com que as vivíamos.
Havia a poesia das rotinas da terra, o caminho feito para ir buscar o leite acabado de tirar da vaca, ainda morno na leiteira, trazendo nas mãos a pureza do mundo no seu estado mais autêntico. E, a coroar a vida, o aroma inconfundível do forno de lenha a avisar que era tempo de comer a broa acabada de cozer.
Quebrar a côdea estaladiça, sentir o vapor suave a erguer-se daquele miolo denso e acolhedor era a definição perfeita de lar.
Esses tempos não voltam, mas continuam vivos em nós. Ensinam-nos, todos os dias, que a felicidade não reside no extraordinário, mas na simplicidade do afeto. Ter vivido tudo isto é a certeza bonita de que fomos infinitamente ricos.
Imagem gerada por IA

0 Comentários
Muito obrigado pelo seu comentário.