Dicionário de vidro: A fragilidade da língua moderna

 


A linguagem é o espelho vivo de uma sociedade, mas, às vezes, parece que estamos a tentar polir o espelho até que ele deixe de refletir a realidade. 
A imagem sugere uma higienização do vocabulário. Expressões como "dia negro" ou "paciência de chinês" passam a ser vistas apenas sob a lente do preconceito, ignorando a carga histórica ou a metáfora cultural que as carregam. 
Se o "negro" é banido por representar o luto ou a dificuldade, surge o paradoxo da brancura. Seguindo essa mesma lógica de policiamento semântico, onde traçamos a linha? 
A Noite em Branco: Quando a insónia nos rouba o descanso, dizemos que passámos a "noite em branco". Se o preto é o peso, o branco aqui é o vazio, a ausência de cor e de sono. Será esta ausência também uma ofensa? 
A "Branca" de Memória: Quando o pensamento foge e a mente fica estéril, "deu-nos uma branca". É o nada absoluto. Se o negro é o "mau", aqui o branco é a falha, o erro de sistema, o vácuo intelectual. 
O Voto em Branco: No auge da democracia, o "voto em branco" é a neutralidade, o desinteresse ou a negação de todas as opções. É o descarte. 
Se começarmos a medir a moralidade de cada adjetivo, corremos o risco de transformar a comunicação num campo minado, onde a intenção do orador vale menos do que a interpretação isolada de uma palavra. 
O racismo combate-se com educação, justiça e igualdade de oportunidades, e não apenas apagando expressões que, na maioria das vezes, utilizamos no nosso quotidiano sem a carga de ódio que lhes querem agora atribuir. 
A verdadeira inclusão faz-se na soma das vozes, e não na subtração das palavras.

Imagem retirada da web

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