Quando partem os escritores, ficam as palavras

 


Há dias em que a vida nos recorda, com uma clareza quase cruel, que tudo é transitório. A literatura, que tantas vezes parece eterna, também respira ao ritmo frágil dos homens que a escrevem. Em poucos dias, Portugal despede-se de dois nomes que durante décadas ajudaram a dar voz ao país: António Lobo Antunes e Mário Zambujal. 
A morte tem esta ironia silente: leva os autores, mas deixa as suas palavras a reproduzir-se nas estantes e na memória dos leitores. Ainda assim, quando desaparecem quase ao mesmo tempo, sente-se um vazio peculiar, como se duas janelas da mesma casa se fechassem de repente. 
Com a morte de António Lobo Antunes, perde-se uma das vozes mais profundas e inquietas da literatura portuguesa contemporânea, um escritor que transformou as feridas da guerra, da memória e da identidade em matéria literária intensa e perturbadora. 
 A sua escrita era um mergulho nas zonas mais obscuras da condição humana. 
Em Os Cus de Judas, por exemplo, deixa esta impressão amarga da guerra e da vida: 
“A guerra ensinou-me que o mundo é muito maior do que o nosso sofrimento.” 
Era assim a sua escrita: fragmentada, febril, cheia de vozes interiores — como se a própria consciência portuguesa estivesse a falar. 
Poucos dias depois, parte também Mário Zambujal, autor que soube olhar o país com ironia, humor e humanidade. Se Lobo Antunes explorava as sombras, Zambujal iluminava os pequenos absurdos da vida. No seu célebre romance Crónica dos Bons Malandros, escreveu com a leveza de quem conhece bem as imperfeições humanas: 
“Não eram ladrões perigosos. Eram apenas homens com demasiada imaginação e pouco dinheiro.”
Entre a densidade existencial de um e o sorriso cúmplice do outro, fica retratado um país inteiro, com as suas feridas, as suas manhas e a sua melancolia. 
A vida insiste em lembrar-nos que tudo passa. Os homens partem, as vozes calam-se, as mesas de café ficam vazias. Mas há uma forma de permanência que a morte não consegue apagar: a literatura.
Enquanto houver alguém que abra um livro e encontre ali uma frase que o reconheça, nenhum escritor morre completamente. E talvez seja essa a única vitória possível contra o tempo.

Imagem: Pixabay

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