O Dia da Mãe é, para muitos, um calendário pintado de cores vivas e rituais de pertença. Mas, para quem a perdeu precocemente, o dia amanhece com uma tonalidade diferente: não é a cor da falta, mas a cor da estranheza.
Não se trata da saudade do que se perdeu, pois não se pode perder o que nunca se teve. É, antes, o exercício de observar uma língua estrangeira que todos à volta parecem falar com fluidez.
Enquanto o mundo corre para comprar flores e reservar mesas, quem cresceu no vazio de um colo dedica-se a uma arqueologia solitária, tentando reconstruir a imagem de um rosto através de fragmentos de outros.
Viver este dia é aceitar que a saudade não é um peso, mas uma bússola. A falta precoce ensinou-nos a identificar o essencial e a valorizar os laços que escolhemos, transformando o luto numa forma peculiar de gratidão pelo pouco que foi tudo.
Ser filho de uma memória é, provavelmente, a forma mais resiliente de amar.
É manter acesa uma luz que se apagou no mundo, mas que continua a iluminar, de forma suave e constante, os corredores da nossa identidade.
Imagem: Pixabay

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