A feira, o muro e a bibliodiversidade

 


No ecossistema do pensamento, a tirania não se manifesta apenas pelo grito, ela exerce-se pelo espaço ocupado. 
O grande não se contenta em ser vasto. Ele sente a necessidade de ser o único horizonte possível. Há uma lógica cruel na verticalidade absoluta: para que um gigante pareça infinito, o pequeno não pode sequer ser visto. Impedir o acesso ao solo, à luz e à voz não é um acidente de percurso, mas uma estratégia de monocultura intelectual. 
Quando se silencia o pequeno, não se está apenas a proteger um lucro ou um território, está-se a castrar a possibilidade de o mundo ser, amanhã, algo diferente do que é hoje. 
A diversidade, essa palavra tão gasta pelo marketing, morre no momento em que a prateleira deixa de ser um convite e passa a ser um muro. 
A recente controvérsia em torno da Feira do Livro de Lisboa e as restrições impostas às pequenas editoras é um reflexo prático desta reflexão. 
Quando um certame que deveria ser a "festa do livro" se transforma numa planta logística que privilegia o músculo financeiro em detrimento da curadoria literária, todos perdemos. 
As pequenas editoras são as guardiãs da bibliodiversidade. 
São elas que arriscam na tradução de autores periféricos, na poesia experimental e nas vozes que não cabem em algoritmos de vendas. 
Ao dificultar a presença destas estruturas, seja por via de custos incomportáveis ou de localizações marginais, a organização da feira está a dizer ao leitor que a cultura tem um tamanho padrão. 
Se o espaço público é dominado por três ou quatro grandes grupos, o "livre arbítrio" do leitor torna-se uma ficção. 
Escolhemos entre o que nos é dado a ver, e o que nos é dado a ver é, cada vez mais, apenas o que já é grande. 
Cercear o acesso das pequenas editoras à Feira do Livro é transformar um jardim botânico num campo de soja: produtivo, sim, mas tragicamente estéril. 
A cultura não deveria ser uma prova de resistência física ou financeira, mas um espaço onde a voz mais ténue tem o direito de encontrar o seu eco. 
"Uma sociedade que só ouve os gigantes acaba por acreditar que o mundo é feito apenas de pedras e silêncio."

Enviar um comentário

0 Comentários