Sempre que as primeiras notas da banda sonora de A Lista de Schindler se ouvem, sinto um aperto no peito que inevitavelmente transborda em lágrimas.
Não é apenas uma reação à beleza melancólica da obra, mas um lamento profundo perante a dimensão da maldade e da perfídia ali retratadas. A forma como a humanidade é despida de toda a sua dignidade, reduzida a números e cinzas, provoca-me uma revolta visceral; é um choro que nasce da impotência e do horror absoluto perante o que fomos capazes de fazer uns aos outros sob o pretexto de ideologias estéreis.
O que mais me consome durante o filme, porém, é a perturbadora consciência de que aqueles carrascos não eram figuras mitológicas ou demónios saídos de um abismo distante. Eram, de forma aterradora, pessoas "normais".
Revolta-me observar que aqueles que operavam a engrenagem do extermínio eram os mesmos que, fora dos portões do campo, apreciavam música clássica, socializavam em jantares elegantes e trocavam afetos com os seus filhos. Essa dualidade entre o monstro e o cidadão comum é uma traição ao conceito de humanidade, revelando uma frieza que não se encontra na natureza selvagem, mas apenas na sofisticação do intelecto humano desviado.
É precisamente essa normalidade do mal que me gela o sangue e me assusta mais do que qualquer explosão de violência explícita. Saber que a barbárie pode habitar num quotidiano banal, entre rotinas de café e conversas de circunstância, retira-me o chão.
O filme não é apenas um registo histórico, mas um espelho sombrio que nos lembra que a falta de humanidade não precisa de garras ou presas para se manifestar; basta-lhe o silêncio de uma vida social organizada e o desprendimento de quem vê no próximo apenas um detalhe estatístico.
Essa é a verdadeira assombração que levo comigo quando as luzes se acendem.

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