Pequenos vícios, grandes embaraços

 



A vida em sociedade não se rege pelas grandes tragédias, mas pelo acumular das insignificâncias. É no quotidiano doméstico que os hábitos inofensivos ganham massa muscular, alimentados pela complacência e pelo afeto, até se transformarem num paquiderme de proporções gigantescas. Ninguém se separa por causa da geopolítica internacional ou da flutuação das taxas de juro; as verdadeiras guerras frias do lar começam na resistência em deitar fora a tampa de um iogurte ou no armazenamento obsessivo de embalagens de cartão "para uma emergência". 
O vício pequeno é astuto: instala-se sem pedir licença e veste a pele da prudência para justificar a sua própria aberração. 
Quando o espaço físico se esgota, a obsessão transborda inevitavelmente para a vida social. É o momento em que receber visitas se torna num teste de sobrevivência tático. O casal já não interage como duas pessoas, mas como dois guardiões de manias antagónicas — uma batalha onde a tentativa de guardar três migalhas num recipiente de plástico de dois litros colide frontalmente com a urgência de as limpar usando um guardanapo de coleção decorado com flor-de-lis. Os convidados, apanhados no fogo cruzado deste teatro do absurdo, percebem rapidamente que não foram convidados para tomar café, mas para testemunhar a coroação do elefante que agora habita o centro da sala. 
No final, resta a constatação irónica de que são precisamente estes pequenos desvios de sanidade que nos tornam tragicamente humanos. O elefante social não é mais do que a soma das nossas picuinhas levadas a sério demais. Quando a visita se esgueira pela porta fora e o silêncio regressa, resta apenas rir da ridícula fortaleza de tralha que erguemos à nossa volta. 
Os pequenos vícios podem não destruir o mundo, mas têm uma capacidade extraordinária de ocupar todo o espaço do sofá.

Imagem gerada por IA

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