Há momentos na vida de quem escreve que não cabem em nenhuma contracapa ou relatório de vendas. Acontece quando menos se espera: a caminhar distraído por uma rua qualquer ou a pensar na lista de compras, e alguém nos corta o passo. Não é um pedido de direções nem um pedido de esmola; é uma mão que se estende trazendo um objeto pesado de silêncio e de horas solitárias — o nosso livro.
Quando essa pessoa nos olha nos olhos e diz, com a urgência de quem acabou de descobrir um segredo, que está de tal maneira amarrada à história que não consegue largar o livro até ver o ponto final, o tempo cristaliza.
Para quem passou meses a fio numa secretária, a discutir com fantasmas de papel e a duvidar de cada vírgula, ouvir aquilo é como ver uma semente estéril rebentar de repente à luz do sol.
O que é que isso significa, afinal, para um autor? Significa que a ponte foi cruzada. Durante o processo de escrita, o livro é um monólogo interior, um grito lançado para o escuro da nossa própria imaginação. Mas naquele segundo na calçada, percebemos que o papel já não nos pertence. A história ganhou pernas, entrou na vida de um desconhecido, invadiu-lhe as horas de descanso e transformou-se num lugar onde ele habita.
Essa abordagem na rua cura qualquer insegurança e apaga o cansaço das madrugadas em branco.
Mostra-nos que a nossa solidão deu as mãos à solidão do outro. É por isso que continuamos a escrever: para que, no meio do ruído do mundo, alguém nos pare o passo e nos prove que valeu a pena ficar a sós com as palavras.
Imagem gerada por IA

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