Onde andas, Verão? (Apontamentos a 27 de agosto)

 


Que pacto secreto assinou o céu com a melancolia para transformar as tardes douradas num suspiro cinzento e húmido? Terá o verão feito uma pausa não programada, retirando-se em silêncio antes de cumprir a sua promessa? 
Olhamos em redor e procuramos a luz intensa que devia arder na pele, mas apenas encontramos nuvens pesadas e um vento desajeitado que parece roubado a outra estação. 
A habitual e saudosa expressão, "Meu querido mês de agosto", ainda se aplica quando os dias desta semana se revelam particularmente tristes, despidos de calor e de entusiasmo? Será que o mês mais célebre do ano perdeu a sua alma, ou apenas adormeceu sob o peso de um céu cansado? 
É uma sensação estranha esta de sentir a nostalgia do verão no próprio coração de agosto.
Sentamo-nos à janela a ver o cinza a arrastar-se pelas ruas e perguntamo-nos para onde fugiram as noites quentes e a luminosidade que fazia as horas parecerem infinitas. Terá sido uma despedida precipitada ou apenas um intervalo breve no espetáculo da estação? 
A pergunta fica suspensa no ar fresco que agora nos arrepia a pele: Onde andas, verão? Voltarás ainda a tempo de resgatar estes dias, ou deixaste-nos já, em definitivo, à mercê do outono?

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