O privilégio da proximidade

 


Viver na aldeia é um privilégio de ar puro e paisagem deslumbrante, dizem os que nos visitam ao domingo. No entanto, de segunda a sexta, o encanto desvanece-se perante o visor da bomba de gasolina. O autocarro, essa miragem que passa a horas em que ninguém trabalha e regressa quando a jornada ainda vai a meio, é um transporte de "serviço público" que não serve o público que produz. 
Quem não tem alternativa senão as quatro rodas e o volante, vê-se duplamente penalizado: 
Pela Ausência: Não usufrui de uma rede que justifique o abandono do carro. 
Pela Distância: Paga o preço total de um combustível que não é um luxo, mas o único acesso à sobrevivência. 
A aldeia oferece o silêncio, mas cobra o preço da distância. Sob o pretexto da ecologia, o Estado subsidia passes e autocarros que nunca estacionam à hora de quem trabalha; para o mundo rural, o transporte público é uma miragem teórica, um horário num papel que ignora a urgência do ponto. 
Quem habita as margens é forçado ao volante. Não por luxo, mas por sobrevivência.

Enquanto as cidades fluem em bilhetes partilhados, o isolado vê o salário evaporar-se no orifício do depósito. É o paradoxo de quem vive no pulmão do país, mas sufoca com o preço de chegar ao trabalho. No final do mês, a liberdade de viver no campo custa caro, e o silêncio da aldeia é apenas interrompido pelo suspiro de quem vê o ordenado ficar retido no asfalto.


Imagem: Pixabay

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