Curto, escaldante e inflacionado

 


O ritual começa com o depósito de uma moeda que, outrora generosa, hoje mal cobre o custo de um líquido extraído sob uma pressão digna de um poço de petróleo. É-nos servida uma pequena dose de trevas líquidas, com um aroma que oscila graciosamente entre o pneu queimado e o carvão esquecido no grelhador, tudo isto servido numa chávena à temperatura de fusão nuclear para garantir que as papilas gustativas morram antes de conseguirem protestar. 
A ironia reside na evolução inversa desta economia de balcão: quanto mais o preço escala em direção ao luxo, mais o sabor mergulha no abismo da mediocridade. 
Saímos do estabelecimento com a carteira mais leve e o estômago em guerra, mas devidamente batizados na nossa fé nacional. Até porque, o português não quer um café; quer o direito sagrado de pagar caro por uma zurrapa escaldante, apenas para poder reclamar da vida enquanto o coração acelera para ritmos de arritmia cardíaca. É a nossa forma de masoquismo matinal, servida com um pacote de açúcar para disfarçar o trauma.

Imagem: Pixabay

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