Entre o silêncio e a inquietação

 


O desassossego da vida não chega de rompante; instala-se devagar, como uma névoa que se infiltra pelas frestas da alma. É no silêncio das rotinas, na repetição dos dias iguais, que ele se torna mais audível. 
Há sempre qualquer coisa por dizer, um gesto por cumprir, um sonho que se adia, e é nesse adiamento constante que o espírito se inquieta, incapaz de repousar no presente. 
Vivemos entre o que fomos e o que ainda não somos, presos numa travessia que nunca se conclui. A memória puxa-nos para trás com a força das saudades, enquanto o futuro nos acena com promessas incertas. No meio desse intervalo, tentamos construir sentido, mas frequentemente encontramos apenas fragmentos, pedaços de nós que não encaixam, perguntas que não cessam, desejos que mudam de forma antes de serem alcançados. 
É um cansaço que não se cura com o repouso, mas com a fuga; uma pressa de chegar a lado nenhum, apenas para não ter de permanecer onde o silêncio nos aponta o dedo. 
Viver torna-se, então, esta ginástica entre o abismo e o quotidiano. Somos equilibristas num fio de arame esticado sobre o nada, carregando o peso de quem fomos e a ansiedade de quem ainda não conseguimos ser. Mas é precisamente nessa fenda, nesse desconforto que nos arrepia a pele, que a alma respira com mais força. 
Porque só quem está desassossegado é que ainda guarda o fogo necessário para incendiar a própria inércia.

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