
Há calos que não se veem, mas pesam. Não nascem do trabalho das mãos, mas do atrito contínuo da vida contra o peito. Cada desilusão, cada perda mal chorada, cada palavra que ficou por dizer vai criando uma camada a mais no coração, como se ele precisasse de se proteger do mundo.
No início, esses calos parecem úteis. Amortecem a dor, ensinam-nos a resistir, dão-nos a ilusão de força. Mas, com o tempo, o que era defesa transforma-se em prisão. O coração endurecido deixa de sangrar e, sem perceber, deixa também de sentir. Já não treme com a esperança, já não se comove com a ternura, já não reconhece o milagre simples de um gesto sincero.
Ainda assim, há uma salvação possível. Os calos do coração não se quebram com violência, mas com cuidado. Uma disponibilidade verdadeira, um perdão inesperado, um amor que chega sem exigir nada podem, pouco a pouco, devolver-lhe a sensibilidade. E quando isso acontece, dói outra vez, mas é uma dor viva, fértil, humana.
Porque um coração sem calos pode sofrer mais, é verdade. Mas um coração demasiado calejado corre o risco maior de não viver.
Imagem: Pixabay
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