
Trago buracos no coração como quem traz janelas partidas: deixam entrar o frio, o ruído do mundo e uma dor sem nome. Não sangram, mas doem de outra forma — uma dor funda, paciente, que se instala e aprende a morar comigo. Há dias em que tento ignorá-los, enchendo o peito de gestos, palavras e silêncios bem arrumados. Mas os buracos não se enganam; sabem distinguir o que é verdadeiro do que é apenas remendo.
Às vezes penso que foram abertos por ausências, outras por excessos. Há buracos que nasceram do amor, outros da perda, outros ainda daquilo que nunca chegou a ser. Cada um tem o seu peso específico, a sua memória, o seu eco. E é esse eco que dói mais: o som do que falta a repetir-se por dentro.
Não sei como se tapam buracos no coração. Desconfio de quem diz saber. Talvez não se tapem; talvez se aprendam a contornar, a respeitar, a carregar com alguma dignidade. Mas se um dia descobrir o segredo — se houver um gesto, uma palavra ou um silêncio capaz de fechá-los sem mentir — serei o primeiro a dizer-vos. Até lá, sigo com o coração imperfeito, batendo apesar de tudo, como quem insiste em viver mesmo com falhas no peito.
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