Filhos da lente

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Os rostos desapareceram.
Substituídos por retângulos brilhantes, lentes negras, círculos perfeitos que nos observam mais do que nós a eles. Na imagem, ninguém olha para ninguém — apenas para o pequeno oráculo de vidro que carregam como uma extensão da própria pele. Será este o novo retrato de família? Será isto o que deixaremos às crianças, que já desenham pais com três olhos — não na cara, mas no telefone?

Ironia das ironias: procuramos ver melhor através de dispositivos que nos cegam lentamente. Procuramos proximidade enquanto erguemos um muro azul luminoso entre nós e o mundo. Pergunto-me, então: quando foi que trocámos o olhar humano pelo reflexo de um ecrã? Quando decidimos que a memória de um momento vale mais do que o próprio momento?

E, sobretudo, se um dia desligarmos tudo… saberemos ainda reconhecer-nos uns aos outros sem precisar de ampliar, focar ou ajustar brilho?

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