O dia que parou por dentro

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Quando a porta se fechou atrás dela, mesmo sabendo que era apenas por algum tempo, o mundo pareceu inclinar-se ligeiramente, como se tivesse perdido o seu centro de gravidade. A casa ficou cheia de um silêncio estranho, demasiado grande para caber nas paredes que antes vibravam com presença dela.

O quotidiano, esse velho companheiro obediente, deixou de fazer sentido. O café da manhã soube a nada, as horas avançaram sem rumo e até os pequenos rituais — aqueles que sempre seguraram a vida — tornaram-se sombras do que eram. Faltava-lhe o riso dela, a energia que deixava nas coisas, o eco das conversas.

Ver uma filha partir é sempre um rasgar suave, quase impercetível, mas que toca o fundo da alma. Sabemos que vai para o seu caminho, para o que a faz crescer, porém há uma parte de nós que fica suspensa no ar, à espera do regresso.

E é nessa espera que o coração aprende a bater noutra cadência, mais lenta, mais funda, até ao dia em que a porta se abrirá de novo e tudo voltará ao seu eixo — mesmo que por instantes, mesmo que por pouco tempo.

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