A terra selada

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Caminhamos sobre o chão como se ele fosse apenas cenário, e não o corpo que nos sustenta. Selamos a terra com betão, asfixiamos-lhe o fôlego com asfalto, e chamamos progresso ao silêncio do solo que já não respira. As raízes, antes mensageiras de vida, agora encontram muros onde havia húmus; a chuva, que outrora era bênção, tornou-se inimiga.

E quando as nuvens se abrem, o que deveria infiltrar-se e nutrir, arrasta e destrói. As águas procuram o caminho que lhes negámos — e cobram, com fúria, o preço da nossa pressa. Depois, olhamos para as ruas inundadas, para as casas submersas, e culpamos o céu, esquecendo que foi nas nossas mãos que começou a tempestade.

A terra não se defende com palavras — apenas espera, em silêncio, que um dia nos lembremos de que o progresso sem equilíbrio é apenas outra forma de deserto.

 

Imagem: Pixabay

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