O adultério global

 hands-7679387_1280.jpg

 

A escassez de valores parece ter deixado o ser humano sedento por escândalo e vazio de discernimento. E é neste cenário que uma simples traição amorosa — um episódio privado, doloroso e tão antigo quanto a própria existência da monogamia — se transforma numa manchete, numa trending topic, numa comoção planetária.

O facto de um ato íntimo e pessoal ocupar espaço nobre nos noticiários é, por si só, um sinal da nossa falência moral coletiva. Quando a infidelidade de um famoso ou pseudocelebridade se transforma em parangona, em tema de debate nacional e em palco de julgamento digital, algo vai mal no termómetro ético da sociedade. Já não somos guiados pela relevância ou pelo impacto social das notícias, mas pela excitação mórbida que provoca saber com quem fulano dormiu ou deixou de dormir.

Nas redes sociais, multiplicam-se os jurados voluntários, prontos a erguer forcas virtuais e a aplaudir linchamentos morais com emojis em fúria. Cada infidelidade torna-se novela, cada amante uma figura pública, cada lágrima da traída um meme partilhado por milhões. E enquanto isso, crises humanitárias, desigualdades gritantes, guerras esquecidas e catástrofes ambientais mal arranjam espaço entre a publicidade e o escândalo do dia.

A questão não é a traição em si — um drama humano como tantos outros — mas a dimensão artificial que lhe é atribuída. Tornar o adultério uma notícia de impacto global diz mais sobre o público do que sobre os protagonistas da história. Revela uma sociedade viciada em distracções fáceis, incapaz de digerir assuntos sérios, mas sempre pronta a devorar intimidades alheias.

Assistimos à espetacularização do banal. A vida privada é devassada em nome do entretenimento e a empatia dá lugar ao voyeurismo. O jornalismo, por vezes cúmplice, deixa de informar para entreter, e as redações rendem-se ao que gera cliques, gostos e partilhas, mesmo que à custa da dignidade e da verdade.

A elevação de uma traição amorosa ao estatuto de "notícia global" é um retrato fiel da nossa era: barulhenta, superficial e ávida por escândalos com prazo de validade. E nesse retrato, espelhamo-nos todos — mais fascinados com os lençóis alheios do que com os escombros do mundo real.

Porque, afinal, o verdadeiro adultério talvez seja esse: o que cometemos contra a inteligência.

 

Imagem: Pixabay

Enviar um comentário

0 Comentários