Coreografia do inferno

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Ardem os pinhais, arde o tempo, arde a paciência. Lá em cima, os aviões riscam o céu como se pudessem apagar, com linhas de água, o que a ganância e o desleixo acenderam cá em baixo. O fumo não vem só da floresta — vem dos papéis que nunca se assinaram, das promessas que nunca se cumpriram, das leis que se dobram à medida dos interesses.

Os bombeiros, esses, queimam-se vivos sem que ninguém veja. Não é só o fogo que os consome — é a indiferença. Combatem com baldes o que outros alimentam com bidões. E nós, de varandas e ecrãs, assistimos a esta coreografia infernal como se fosse um ritual de verão.

A floresta morre todos os anos. O país também. Só a culpa é perene — mas nunca tem nome, nem rosto.

Malditos sejam!

 

Imagem: Pixabay

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