
"Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és"— este velho provérbio, tantas vezes repetido, carrega em si uma reprodução ancestral da sabedoria popular, mas também uma armadilha subtil.
É verdade que os que nos rodeiam influenciam os nossos gestos, moldam as conversas, arrastam-nos — com ou sem intenção — para terrenos onde, sozinhos, talvez não puséssemos os pés. Os laços humanos são feitos de espelhos e ecos, e quem caminha ao nosso lado deixa marcas nos nossos passos. Porém, reduzir alguém à sua companhia é esquecer que cada pessoa é, antes de tudo, uma construção própria, feita de escolhas, quedas, resistências e segredos.
Há quem ande com lobos e mantenha o coração de cordeiro. Há quem se mova entre as sombras para melhor reconhecer a luz. E há quem caminhe sozinho por fora, mas carregue multidões por dentro.
A frase ensina prudência, sim, mas não nos deve cegar para a complexidade do ser. Às vezes, quem anda com quem julgamos indigno está, afinal, a tentar salvá-lo — ou a si próprio. Por isso, talvez devêssemos reformular: diz-me com quem andas, e escutarei com atenção… mas ainda assim, esperarei para ver quem és.
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