Escrever um livro é um ofício em grande parte invisível. Chega um dia em que o leitor folheia páginas alinhadas, limpas e ordenadas, mas raramente vê o chão coberto de rascunhos, as ideias dispersas e o silêncio denso que antecede cada frase.
Estes últimos dias têm sido habitados por essa construção subterrânea.
Têm sido dias passados entre cadernos abertos, o brilho constante do ecrã e um diálogo ininterrupto com vozes e cenários que ainda só existem do lado de dentro.
Cortam-se excessos, reescrevem-se parágrafos inteiros, procuram-se as palavras exatas para dar corpo a algo que começou apenas como um pressentimento.
Antes de haver uma capa, uma lombada ou um título, há este esforço paciente e solitário: o método de erguer, tijolo a tijolo, uma história que em breve deixará de ser só minha.

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