O assunto que não é assunto

 


É verdadeiramente comovente ver o empenho da comunicação social portuguesa em salvar-nos do tédio quotidiano. 
Graças a Deus que existe a infindável, dramática e profundamente existencial novela entre Cristiano Ronaldo e a Seleção Nacional. Sem ela, o que seria dos canais de informação? Teriam de falar de economia? De saúde? De coisas úteis? Que horror. 
Felizmente, temos à disposição centenas de horas de emissão dedicada à única questão que verdadeiramente importa à civilização ocidental: Será que o Cristiano fez má cara ao ser substituído aos 83 minutos contra o Liechtenstein? 
Um assunto que qualquer mente dotada de dois neurónios funcionais arrumava em trinta segundos ("joga quem rende, obrigado pelos serviços prestados e um abraço"), transforma-se, por milagre do jornalismo desportivo, num simpósio de filosofia quântica. Juntam-se em estúdio quatro ou cinco "comentadores" com cara de quem está a decidir o destino do Tratado de Roma, prontos a dissecar durante três horas o ângulo de inclinação do pescoço do Capitão no banco de suplentes. 
Analisa-se se o suspiro no treino foi um sinal de revolta ou de desidratação. Debate-se em horário nobre se um senhor de quarenta e um anos deve continuar a bater todos os livres para a bancada ou se, por audácia extrema, devia dar lugar a outro. 
E a emissão continua, com o rodapé em vermelho vivo a piscar "ALERTA" como se a III Guerra Mundial tivesse começado, só para nos avisar que Ronaldo acabou de comer uma banana no balneário. 
O país pode estar a cair aos bocados, mas que ninguém se atreva a desligar a televisão: há mais três painéis de peritos agendados para a noite, prontos a mastigar exatamente a mesma palha que mastigaram ontem, anteontem e nos últimos cinco anos. Uma autêntica obra-prima da perda de tempo nacional.

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