Estava convencido de que o livro caminhava para o fim. As páginas alinhavam-se, a revisão avançava, as palavras eram pesadas uma a uma, corrigidas aqui, afinadas ali. Já quase conseguia sentir aquele alívio de quem chega ao fim de uma longa viagem.
Até que, no meio de uma frase, surgiu uma ideia. Pequena, quase insignificante, daquelas que aparecem sem pedir licença e depois se recusam a sair.
Fiquei a olhar para ela durante algum tempo. Bastou isso para perceber que não podia deixá-la ficar à porta. Tinha de entrar na história, ganhar espaço, mexer nas personagens, alterar caminhos e levantar perguntas que eu julgava respondidas. E lá vou eu acrescentar mais um capítulo, sabendo que, por detrás dele, virão páginas para corrigir, cenas para reescrever e decisões que julgava definitivas.
A verdade é que nunca somos inteiramente donos das histórias que escrevemos.
Às vezes, pensamos que estamos a chegar ao fim, mas a história ainda tem qualquer coisa para nos dizer. E nós, teimosos ou simplesmente incapazes de lhe virar as costas, voltamos atrás, apagamos, acrescentamos, recomeçamos.
O livro ainda não está terminado, porque, há histórias que não aceitam o ponto final enquanto não lhes dermos a última palavra. E, pelos vistos, a minha ainda não chegou lá.
Imagem gerada por IA

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