Duas crianças. Uma estrada deserta. A manchete lê-se com um aperto inevitável no peito, mas a mente recusa-se a aceitar a crueza das palavras: há suspeitas de abandono propositado.
Que mundo é este onde a inocência e a vulnerabilidade mais puras podem ser deixadas à sua sorte na berma do caminho?
Que humanidade é esta que, em vez de proteger e acolher o seu futuro, decide simplesmente virar as costas e acelerar em direção ao egoísmo?
Olhamos para esta situação e a pergunta impõe-se, pesada e inevitável: em que momento falhámos como comunidade?
Uma sociedade que se orgulha do seu progresso tecnológico, das suas redes de comunicação e da sua suposta evolução moral, mas que falha no mais elementar dever de humanidade, é uma sociedade profundamente doente. Estaremos a caminho de uma falência absoluta de valores, onde a empatia se tornou um luxo descartável e a responsabilidade afetiva um fardo pesado demais para carregar?
Se o berço já não é um lugar seguro e a mão que deveria guiar é a mesma que abandona, o que nos resta?
Resta-nos a urgência de questionar o que nos estamos a tornar, antes que a indiferença engula o resto de decência que ainda nos une.

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