O conforto amargo da culpa


Quando a desgraça bate à porta, a primeira reação raramente é pensar em como sair dela. Antes disso, há quase sempre um impulso mais primitivo e mais confortável: apontar o dedo. Procurar um culpado dá-nos a ilusão de ordem no caos. Culpar também alivia. Transfere o peso da dor para fora de nós, como se a raiva pudesse servir de anestesia. Enquanto discutimos quem falhou, adiamos o confronto com a pergunta mais difícil: “E agora?” 

Encontrar soluções exige lucidez, paciência e, sobretudo, responsabilidade. Obriga-nos a reconhecer limites, a aceitar erros próprios e a trabalhar num terreno incerto, onde não há garantias nem bodes expiatórios. Além disso, a culpa é ruidosa e imediata; a solução é discreta e lenta. 

Apontar culpados rende discursos inflamados, indignação partilhada e uma sensação momentânea de justiça. Resolver problemas, pelo contrário, pede silêncio, método e perseverança, virtudes pouco espetaculares, mas transformadoras. 

No fundo, preferimos culpar porque é mais fácil do que mudar. É mais simples reescrever o passado à procura de um vilão do que construir um futuro com as mãos magoadas pelo esforço. No entanto, enquanto nos perdemos na perseguição aos culpados, a desgraça permanece. 

Só quando aceitamos que a dor não se resolve com acusações é que começamos, finalmente, a caminhar em direção a algo que se pareça com esperança.


Imagem: Pixabay

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