Heróis do teclado, mártires do anonimato

 


Há uma espécie curiosa que habita as catacumbas reluzentes da internet: o Comentador Anónimo. Não tem rosto, mas tem certezas. Não tem obra, mas tem opinião. Não tem nome, mas assina com convicção: “Leitoratento73”, “Verdadenua”, “Justiçapoética” — esta última sempre escrita sem poesia e sem justiça. Eles surgem invariavelmente sob os meus textos — sim, assumo o escândalo: escrevo livros e, imagine-se, ouso falar deles no meu blogue. Um desplante. Uma afronta à modéstia universal. Como me atrevo a dar notícia daquilo que escrevi, a partilhar o que pensei? 
O Comentador Anónimo lê — ou pelo menos percorre na diagonal, com a atenção breve de quem procura apenas munição — e depois sentencia. “Pretensioso.” “Mais do mesmo.” “Quem é que ele pensa que é?” Perguntas profundas, quase metafísicas. Fico sempre tentado a responder: penso que sou alguém que escreve. Mas receio desiludir quem esperava um pedido de absolvição pública. 
Há neles uma coragem admirável: a bravura de quem dispara do nevoeiro. São gladiadores de teclado, paladinos da ironia fácil, cavaleiros da gramática hesitante. Combatem com afinco a perigosa ameaça dos autores que… escrevem. E promovem o que escrevem. Imperdoável. 
No fundo, suspeito que me prestam um serviço involuntário. Cada comentário jocoso é uma pequena prova de leitura — ainda que indignada. Cada sarcasmo apressado confirma que, por instantes, as minhas palavras lhes interromperam o silêncio. E isso, para um escritor, é quase um elogio — mesmo quando vem embrulhado em fel. 
Continuem, pois. Comentem. Riam. Escondam-se atrás do biombo confortável do anonimato. Eu continuarei a fazer o que vos incomoda: escrever. E, com escândalo redobrado, falar dos meus livros no meu blogue — esse perigoso foco de literatura não autorizada.

Imagem: Pixabay

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