
Há uma tristeza serena nas livrarias de rua. Elas permanecem ali, como velhos sentinelas de papel e tinta, resistindo ao tempo e à pressa do mundo. As montras já não seduzem como antes, e o tilintar da porta ao abrir tornou-se raro, quase um eco de um passado onde os livros ainda eram descobertas, não meros produtos.
Dentro delas, o cheiro das páginas antigas mistura-se com a resignação do livreiro, que conhece pelo nome autores e leitores, mas já se habituou a ver mais olhares apressados do que olhos encantados. São ilhas cercadas por ecrãs, por algoritmos que prometem saber o que o leitor quer antes mesmo que ele deseje. Mas ali, nas prateleiras empoeiradas, ainda repousa o acaso — o milagre de encontrar um livro que não se procurava.
A lenta extinção destas casas é mais do que um adeus ao comércio de livros. É o definhar de uma cultura que exigia tempo, silêncio e entrega. O mundo lê cada vez menos em papel e pensa cada vez mais em velocidade. E aquelas portas, tantas vezes abertas para acolher, fecham-se uma a uma, sem protestos, sem manchetes, sem memória.
Talvez, um dia, ao passarmos por onde antes houve uma livraria, sintamos um vazio sem saber porquê. E será o silêncio do último bastião da literatura, que tombou sem alarde, de pé e só, como um velho herói esquecido.
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