
A Europa fala com ela própria como quem se observa num espelho rachado. De um lado, repete-se o mantra da emancipação, da autonomia estratégica, da necessidade de caminhar com os próprios pés. Do outro, ri-se nervosamente sempre que alguém ousa dizer isso em voz alta, como se a palavra “independência” fosse uma fantasia embaraçosa, boa apenas para colunas de opinião e seminários académicos.
Os líderes e comentadores europeus exercitam um pensamento esquizofrénico: defendem a maioridade do continente, mas castigam quem tenta agir como adulto. Aplaudem a ideia abstrata de uma Europa soberana, mas zombam do político concreto que a verbaliza, acusando-o de ingenuidade, populismo ou heresia atlântica. É como se a Europa desejasse libertar-se, mas temesse profundamente o silêncio que viria depois da tutela.
Esta contradição revela mais medo do que estratégia. A dependência transformou-se em hábito, e o hábito em virtude disfarçada. Questioná-la expõe a fragilidade do consenso e a pobreza do debate. Assim, a Europa continua a ensaiar discursos de emancipação enquanto se refugia no conforto da obediência, rindo de si própria para não ter de decidir quem quer realmente ser.
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