
Dizem, com um ar de sabedoria herdada de séculos de vinhas e sentimentalismo, que o melhor vinho não é o mais caro, mas sim aquele que é partilhado. A frase circula em postais vintage, em legendas de Instagram com filtros sépia, e em conversas entre amigos depois da segunda garrafa — geralmente quando já ninguém distingue entre um Douro reserva e um pacote de mesa do supermercado.
A ideia tem o seu encanto. Há, de facto, uma beleza terna em sentar-se à mesa com os que se ama e abrir uma garrafa — mesmo que o vinho saiba a vinagre com complexos de nobreza. É nesse momento que se repete o mantra: “o importante é a companhia”. O que ninguém diz é que essa frase surge, quase sempre, para justificar o conteúdo duvidoso do copo.
Entretanto, num restaurante estrelado, alguém pede um Château Margaux de 1996 e brinda em silêncio — porque ali não há partilha, há reverência. O vinho caro, afinal, tem outro tipo de liturgia: serve-se em copos largos, gira-se com solenidade, cheira-se com o nariz espetado como um aristocrata do século XVIII, e bebe-se em goles minúsculos, como quem toma o sangue de uma divindade. Partilhar, sim, mas com cautela e controlo de porções.
Mas voltemos ao vinho partilhado. Não ao partilhado por gosto, mas por necessidade — aquele que se leva a um jantar de amigos com etiqueta rasgada e esperança de que ninguém pergunte onde foi comprado. Esse vinho, o honesto e despretensioso, é o que mais histórias carrega. É o que se entorna na toalha, o que faz alguém rir até à tosse, o que ajuda a confessar segredos e a reatar amizades. É, no fundo, o vinho da vida real: imperfeito, acessível, e por isso mesmo... genuinamente inesquecível.
Sim, talvez o melhor vinho não seja o mais caro. Mas que o caro, quando partilhado, tem um sabor especial — isso tem. Sobretudo quando é o outro a pagar.
Imagem: Pixabay
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