O elogio ao desequilíbrio

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Se refletirmos com calma, percebemos que a metáfora aponta para uma contradição profunda da nossa civilização: transformamos aquilo que deveria causar espanto e preocupação em motivo de admiração. O excesso, que revela desequilíbrio, é travestido de virtude. A escassez, que denuncia injustiça, é explicada como fracasso individual.

Quando um animal se desvia do comportamento coletivo, procuramos entender o que está errado; mas quando um ser humano acumula riqueza a níveis absurdos, chamamos de genialidade, visão, competência. Esta inversão de valores revela mais sobre nós do que sobre os próprios ricos: mostra uma sociedade que perdeu a capacidade de ver o outro como parte essencial de si mesma.

O que é a fortuna senão um amontoado de bananas inúteis, guardadas enquanto muitos padecem de fome? A lógica da acumulação desenfreada produz um mundo de abundância para poucos e de miséria para muitos. E, no entanto, escolhemos não questionar: erguemos estátuas, construímos listas de milionários, vendemos a ilusão de que todos podem lá chegar — ainda que a realidade mostre o contrário.

Talvez o desafio maior esteja em inverter o olhar: deixar de admirar a acumulação e passar a admirar a partilha. Se a humanidade conseguir valorizar mais o gesto de repartir do que o de acumular, então poderemos, enfim, chamar-nos de verdadeiramente humanos.

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