A tragédia da culpa solteira

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A ponte cai. O ascensor despenca. O ferro e a madeira que deveriam sustentar a vida tornam-se túmulo, e o rumor do choque ouve-se mais fundo do que o simples ruído da tragédia. Depois, o silêncio. E nesse silêncio ergue-se a pergunta: a culpa, uma vez mais, morrerá solteira?

Entre relatórios que se arrastam, comissões que se multiplicam e responsabilidades que se diluem, instala-se a velha rotina da inação (oxalá esteja enganado). A passividade dos que deveriam prevenir transforma-se em cinismo; a irresponsabilidade, em desculpa técnica; a inimputabilidade, em capa invisível para decisores que nunca se sentam no banco dos réus.

Enquanto isso, os mortos não voltam, os feridos carregam cicatrizes e os vivos aprendem a conviver com a impotência. A tragédia não é apenas a queda do ferro ou da madeira, mas a queda contínua da confiança: a certeza de que, entre nós, a vida pesa menos do que a assinatura que nunca chega, a inspeção que não se faz, a coragem política que não existe.

E assim, entre destroços e flores murchas, persiste a dúvida amarga: quem nos garante que amanhã não será outra ponte, outro ascensor, outra vida ceifada pelo descuido impune de quem deveria cuidar?

 

Imagem: https://viajes.nationalgeographic.com.es/a/elevador-mas-querido-lisboa_21796

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