
“Nada é mais terrível do que ver a ignorância em ação.” Esta frase, atribuída a Goethe, revela-se cada vez mais pertinente num tempo em que o ruído das certezas vazias se sobrepõe à modéstia do conhecimento. Vivemos numa era em que a informação nunca foi tão acessível — e, paradoxalmente, a ignorância nunca se manifestou de forma tão barulhenta e confiante.
A ignorância, por si só, não é um mal absoluto. Ninguém nasce ensinado, e todos temos áreas em que o saber nos escapa. A gravidade do problema — e, como dizia Goethe, verdadeiramente terrível — surge quando a ignorância se transforma em motor de decisões, em discurso político, em convicção inabalável, em espetáculo.
Basta olhar para os discursos públicos onde se rejeita a ciência em nome da “intuição popular”; para as redes sociais onde se espalham absurdos com a mesma convicção com que se recita o alfabeto; para as figuras públicas que, sem qualquer pudor, opinam com autoridade sobre tudo, mesmo quando demonstram saber absolutamente nada.
A ignorância em ação não é passiva — é proativa, militante, contagiante. Assume cargos, redige leis, influencia massas. Não tem dúvidas, não hesita, não estuda. É veloz, simples e perigosamente eficaz. A tragédia é que, por vezes, os ignorantes agem com uma fé tão desinibida que se tornam líderes de muitos que, por cansaço ou comodismo, seguem quem fala mais alto, não quem pensa melhor.
O saber requer humildade. A ignorância, quando se reveste de arrogância, torna-se tirânica. E nesse ponto, deixa de ser apenas uma ausência de saber para se transformar numa forma ativa de destruição: de ideias, de direitos, de vidas.
Por isso, devemos ter cuidado. Porque quando a ignorância se organiza, quando se enche de coragem e se mascara de “voz do povo”, já não é apenas um problema individual — é um risco coletivo. E se não a enfrentarmos com educação, pensamento crítico e coragem, ela continuará a agir. E Goethe continuará, infelizmente, a ter razão.
Imagem: Pixabay
0 Comentários
Muito obrigado pelo seu comentário.