
Em Novelhos, a paisagem é, à primeira vista, um convite à contemplação. O ribeiro serpenteia entre enormes pedregulhos que parecem ter sido ali deixados pelos deuses, guardando, junto de si, os velhos moinhos que falam de esforço, engenho e sobrevivência. Quem caminha por ali sente-se diante de um património que não pertence apenas à terra, mas também à memória coletiva.
E, no entanto, a desilusão chega depressa. O olhar, ainda preso à beleza da água e da pedra, é traído pelo odor que vem da corrente. A descarga da ETAR rompe a harmonia, mancha a paisagem, fere o ribeiro. O que deveria ser um refúgio de serenidade transforma-se num aviso cru de como o descuido humano não conhece limites.
É um contraste doloroso: de um lado, a obra antiga que respeitava a natureza e dela dependia; do outro, a modernidade que, em nome da conveniência, a envenena. Fala-se de progresso, mas que progresso é este que transforma o coração de um lugar em esgoto? O visitante, que ali chegou à procura de silêncio e beleza, sai com um gosto amargo de desilusão e uma pergunta na cabeça: será que ainda temos capacidade de aprender com os espaços que herdámos, ou vamos continuar a destruí-los até nada restar para contemplar?






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